diário do que acontece quando minto para pessoas desconhecidas em eventos sociais

não, não sou mitomaníaco. mas tenho achado particularmente divertido desenvolver verbalmente a primeira ideia que vier na minha cabeça enquanto converso com pessoas desconhecidas em baladas, festas de rua, barzinhos etc. 
essas ideias que vêm raramente têm compromisso com alguma verdade verificável na minha narrativa cotidiana. parei de me preocupar com veracidade pra pensar em verossimilhança. mesmo quando a verossimilhança é absurda. é um exercício que - apesar de sempre me render divertimentos - me deixa pensando coisas bem diferentes a cada nova vez.
dá pra chamar de essa atividade de muitos nomes. meter caô, meter o loko, pós-verdade, performance? (talvez esse último seja pretensão demais.) de qualquer maneira, o propósito é entretenimento. criar efeitos de sentido que divirtam, que captem a atenção ou que intriguem e confundam no momento da interação. nunca quis roubar dinheiro, tirar proveito de situações ou ganhar algum privilégio com isso. 
até porque eu quase sempre revelo que o que falei é mentira/brincadeira. quase sempre.

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virada do ano novo 2017-2018 | casa de uma menina 

um amigo em comum que me convidou pra casa dela pra virada. antes de entrar no apartamento eu disse que vinha do futuro. de 2018? não. inventei um ano que não lembro mais. falei que tava em intercâmbio. temporal. que no futuro as coisas são assim. eu tinha um brinco feito de fones-de-ouvido: futuro. no futuro, no futuro, no futuro. mostrei música do futuro. a moda lá é se vestir como nos anos 10. minha anfitriã tava chapada e lisérgica. disse pra ela que alguns pesquisadores do campo equivalente à etnografia na minha universidade fazem observações no passado. presencialmente. meu diário é meu caderno de campo. pedi pra ela assinar ele. a razão pela qual eu revelei a minha pesquisa é porque estou testando justamente isso. o meu objeto de estudo no futuro é a gênese das inverdades, e de como o discurso absurdo é absorvido. a realidade na verdade é absurda e minha anfitriã não vai conseguir concebê-la senão pelo ficcional. começo acreditar no que digo. as pessoas pensam que é performance, um rolê que inventei agora. boto fé - ela disse. ela também era pesquisadora. não sei o que ela pesquisa, mas disse que ela tinha conscientemente apagado sua memória. mas e os meus registros? quais são? bem, tem registros que a gente deixa aqui e ali - principalmente digitais - que são encaminhados pro nosso eu pesquisador que mora na outra temporalidade. tecno-xamanismo: somos etnógrafos de nós mesmos que produzem inconscientemente dados de pesquisa enquanto observamos esse tempo. 

5-6 de janeiro de 2018 | Cidade Baixa

um menino usa uma bolsa na frente de um bar. minha amiga me diz que ela é uma bolsa da Colômbia. digo pra ele que sou colombiano. em espanhol. de que parte? do nordeste. em Santander. Bucaramanga e tal. moro aqui faz tempo. ele acredita. continua a falar em espanhol. e me pergunta se conheço um tal de  _________? digo que sim. ele também é colombiano. claro. foi expulso de tal lugar - descubro. porque ele omitiu uma renda - ele omitiu uma renda. trabalhava na empresa aí, ganhava altas granas. de fato, eu conhecia essa pessoa, mas não sabia nada sobre essa fraude. fico pensando que mentir sobre ser colombiano é bastante inocente perto desse lance - mas mesmo assim não sinto energia pra bancar o espanhol. falo em português. imito um sotaque. ele diz que falo muito bem. a amiga que me ouvia também ficou surpresa: ela não sabia que eu era colombiano. conto pra eles que sou brasileiro. ele ri bastante, diz que meti um caô. pergunta de onde sou. o que eu faço. quem sou eu de verdade. tu faz teatro? sim. eu faço. elaboro um pouco sobre o DAD. Departamento de Arte Dramática. às vezes eu vou lá. só ponho em prática o que aprendi. risos, cerveja e maconha.

*

um cara que ouvia a história do colombiano ficou intrigado. chega pra mim. o que tu faz de verdade? tu é do teatro? não quero falar pra ele a real. zero vontades de estabelecer contato. digo daí que ele tem que resolver essa confusão na terapia. ele pensa. tu é da psicologia, então? pergunto se ele faz análise ou um rolê cognitivo-comportamental. ele me diz que fez análise por 4 anos e que agora faz TCC. incentivo. TCC é ótimo. sim. gosto mais. elaboro sobre trabalhar com a teoria dos enquadramentos, que é melhor que a de esquemas de comportamento. todo psicólogo bem formado sabe disso. falo que tem a ver com contribuições da linguística. ele acredita. explica que cansou de ouvir que quer transar com os pais dele. fala de problemas da sexualidade dele. começa a me contar o que sentia na análise. me diz ainda que a terapeuta atual é muito tudo-pode. talvez ele queira mudar. falo pra ele que vai dar tudo certo. ele diz: é o teu lado psicólogo falando? eu respondo que é o lado paciente dele perguntando - porque o enquadramento em que nos colocamos ativou o teu esquema de terapia. tava armazenado aí, eu disse. pode crer. pode crer. 

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Sobre o Autor

Gosta de línguas, reflexões introspectivas, UTAU/Vocaloid, discussões sobre gênero e sexualidade, do céu e de fazer da vida alheia um bordado de renda (de chita filó).