Resenha ao Léu: A Saída dos Operários da Fábrica, de Harun Farocki

Ficha técnica

Título: A Saída dos Operários da Fábrica (Arbeiter verlassen die Fabrik)
Diretor: Harun Farocki
Ano: 1995
País: Alemanha
Duração: 36min




Resenha

Em 1985, os irmãos Lumière exibem o que se considera o primeiro filme da história do Cinema: A Saída dos Operários da Fábrica. O filme, de menos de um minuto, mostra muitos operários saindo pelo portão de uma fábrica no seu horário de saída e… só. A novidade da fotografia em movimento já era por si só digna de registro - o objetivo do filme era, portanto, apenas demonstrar que as pessoas se moviam dentro da tela.


E isso torna o filme dos Lumière simples, certo? É só um bando de gente saindo de uma fábrica qualquer, não é?

Não. Definitivamente, não.

Harun Farocki, cem anos depois, mostra-nos, através de uma série de reflexões sobre o filme dos Lumière, como a sétima arte retratou ao longo da história as cenas de saída de fábricas - e como a obra dos irmãos é emblemática. São cenas com Chaplin, com Monroe, cenas de momentos de greve, de revolução popular, de controle popular, cenas do cinema americano, soviético, russo... Todas entrepostas, repetidas, revistas, acompanhadas de comentários e comparadas - sempre - à cena dos irmãos Lumière.
A gente se pergunta: o que significa então a felicidade dos trabalhadores ao sair da fábrica no primeiro filme? E por que esta se repete em todos os filmes que virão? Por que o trabalho não é interessante às câmeras? Por que a história sempre se desenrola no sair da fábrica e não no estar nela? A história do trabalho e dos direitos trabalhistas nos diz por quê: porque trabalhar é enfadonho, ruim e torturante - e sair do trabalho é um alívio, uma tranquilidade, um prazer que impulsiona narrativas.
O filme então indica que o sentimento do sair da fábrica esteve, por vezes, atrelada à imagem do sair de uma prisão! Quando o operariado sai da fábrica, em muitos filmes documentais, o faz de maneira alegre, “como se soubesse onde é o lugar das coisas felizes.”. É impossível, neste ponto do filme, não pensar em todos os locais que não são preferidos pelas nossas narrativas: a saída da escola é uma cena bastante comum também, não? 



O diretor volta sempre à cena dos Lumière. Há nela muito a se explorar. Até a questão do gênero é abordada: as mulheres estão, quase que majoritariamente, presentes na cena. E isso ainda se repete nos filmes sucessores. Elas estão lá também, no entanto, (e aí Farocki problematiza) sempre acompanhadas de seus maridos. 
Farocki aborda até então a história do cinema contada lado a lado com a história dos direitos trabalhistas e a história das mulheres… mas não para por aí! Há pistas por todo o filme de um portão que deve ser pulado, um portão que separa duas Alemanhas - o Muro de Berlim. Ou seja, a história da Alemanha também está ali!
Isso se explica: o diretor era da Escola de Berlim, um movimento que acontece depois da reunificação das Alemanhas e que busca reinventar o cinema dessa nação reconstituída. O cinema de Farocki é, assim, político, e levantar questões relacionadas à sociedade do trabalho e à história do Cinema é totalmente a praia dele. 
Por fim, o curta deixa uma homenagem (talvez irônica?) aos irmãos Lumière. Após a revisão das representações de saídas de fábrica ao longo da história do Cinema, Farocki conclui: parece que estamos repetindo a mesma cena há 100 anos. Nada mudou. O operariado é mostrado sempre feliz ao sair da fábrica, e a narrativa só se dá depois que essa saída acontece. Ou seja, se por um lado, estivemos sempre repetindo, como uma criança orgulhosa de suas primeiras palavras, a primeira cena do Cinema; por outro, não evoluímos também no que toca os direitos trabalhistas - afinal, o horário de saída ainda é um alívio e o trabalho nas fábricas ainda é análogo ao cárcere.

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Sobre o Autor

Gosta de línguas, reflexões introspectivas, UTAU/Vocaloid, discussões sobre gênero e sexualidade, do céu e de fazer da vida alheia um bordado de renda (de chita filó).