[Tradução - The Guardian] Queda de apresentadora do Japão revela machismo da grande indústria

De aparições diárias na TV a persona non grata do show business japonês em questão de semanas, o drama da queda de Rebecca Eri Ray Vaughan foi acompanhado apenas pela demonstração da forma severa com a qual o país trata suas artistas.
Até relatos recentes de seu caso virem à tona, Becky era um dos rostos mais populares da televisão japonesa.

Até notícias de seu suposto caso com um homem casado surgirem no início deste mês, Becky - como ela é conhecida - era uma das personalidades mais famosas na televisão japonesa, participando periodicamente em 10 comerciais e estando em meia dúzia de programas televisivos.

Os telespectadores gostavam da sua imagem cuidadosamente fabricada de garota perfeita e do seu jeito indefeso e jovial. Como filha de uma japonesa e de um inglês - seu status haafu (do inglês half - metade) trouxe um toque de exotismo ao entretenimento deles.

Apesar disto, bastou que uma SMS vazasse - capturada pela imprensa sensacionalista - para que se interrompesse uma carreira de 15 anos cuja ascendência parecia garantida.

Sua situação também motivou um debate sobre a imposição que as poderosas agências de entretenimento japonesas exercem sobre suas cantoras, atrizes e apresentadoras.

No mesmo momento em que Becky, de 31 anos, pondera sobre sua remoção abrupta da TV, de comerciais e do seu próprio programa de rádio, ela pode se perguntar o porquê de estar em todas as manchetes, enquanto seu suposto amante, um cantor pop, leva adiante sua carreira aparentemente ilesa.

O crime dela, ao que parece, foi quebrar a firme regra que obriga celebridades femininas do Japão não somente a entreter, mas também a manterem-se moralmente irrepreensíveis.

Semanas após uma manchete sobre seu suposto caso com Enon Kawatani, o vocalista de 27 anos da banda Gesu no Kiwani Otome, empresários seus rasgaram contratos, supostamente por ordem de sua própria agência, a Sun Music.

Na última semana, Becky desapareceu da TV e perdeu contratos de propaganda e seu próprio programa de rádio.

Mesmo que a Sun Music tenha alegado “doença e depressão”, é provável que a artista não retorne depois de se recuperar.

Philip Brasor, comentarista de mídia e cultura japonesa, diz que, como muitas das celebridades que marcam presença nos programas de variedades do Japão, “toda a razão para que ela seja um talento de TV é sua imagem de mulher divertida, agradável e adequada, e, uma vez arruinada essa imagem, Becky não tem mais valor para as pessoas que a usam”.
O suposto amante de Becky, o cantor pop Enon Kawatani, viu sua carreira prosseguir sem grandes problemas por causa das acusações.

No momento de cultivo de uma possível celebridade, quando agências gastam tempo e dinheiro, cria-se uma marca que não deixa espaço para equívocos.

“A maioria dessas pessoas não tem habilidades convencionais para entretenimento”, alega Brasor. “Seu valor para as agências está totalmente associado ao gosto do público, o que significa que suas vidas pessoais são, também, propriedade das agências.”

Becky, aponta ele, foi acusada de adultério, sendo improvável que ela ganhe simpatia do público: quando um canal de TV mostrou recentemente uma filmagem dela, capturada antes mesmo do escândalo, acabou por receber mais de mil reclamações em 10 minutos.

Entretanto, outras celebridades femininas viram suas carreiras serem prejudicadas por relacionamentos não-adúlteros.

No último mês de setembro, uma integrante de 17 anos de uma banda “idol” formada apenas por garotas foi condenada a pagar 650 mil ienes (cerca de 21 mil reais) para sua agência após o descobrimento de seu namorado - uma violação da cláusula anti-namoro de seu contrato. Para piorar sua situação, seu relacionamento causou o fim do grupo.

O caso revelou as fronteiras até onde agências de entretenimento japonesas vão para assegurar as fantasias - e garantir a lealdade comercial - da massa de homens fãs de bandas de garotas.

“Enquanto ela for uma idol”, o juíz, Akitomo Kojima, diz, “a proibição de namoro é necessária para obter apoio de fãs homens”.

Entretanto, mulheres que faltaram para com as restrições de contratos no último mês encontraram um aliado improvável, num caso que poderia armar um precedente desconfortável para agentes arrogantes.

Numa decisão surpreendente, Katsuya Hara, um juiz da corte de Tóquio, decidiu em favor de uma integrante de uma banda de garotas que namorava um de seus fãs. A agência da garota levou-a à corte procurando obter quase 10 milhões de ienes por causa da quebra da regra anti-namoro

Descrevendo a proibição como “excessiva”, Hara disse que a mulher de 23 anos, que não foi nomeada, gozou de direito constitucional de procura à felicidade - e isso inclui ter um namorado.

O valor da mulher como uma mercadoria está em risco de evaporação tão logo ela aparece “inalcançável” para seus fãs homens, segundo Mark Schreibeer, que escreveu extensivamente sobre a indústria do entretenimento japonesa.

“As agências de entretenimento contratam crianças quando elas são bem jovens, então elas procuram livrá-las de qualquer coisa controversa ou ilegal”, diz Schreiber. “Mas a cláusula anti-namoro deve expirar quando as crianças atingem os 20 anos [e são legalmente adultas].”

Minami Minegishi, ex-integrante do grupo de garotas mais popular do Japão, AKB48, já tinha essa idade quando uma revista publicou fotos dela deixando o lar de seu namorado em 2013.

Horas depois do lançamento da revista, Minegishi, que raspara sua cabeça - um ato tradicional de arrependimento no Japão - foi ao YouTube para se desculpar em lágrimas.


“Como uma integrante sênior do grupo, é minha responsabilidade ser um modelo para as integrantes mais novas”, disse ela, antes de terminar o vídeo mea culpa inclinando-se profunda e vagarosamente. “Tudo o que fiz foi inteiramente minha culpa. Eu sinto muitíssimo.”

Ainda, Schreiber duvida que a recente decisão em favor da cantora da banda vá enfraquecer a determinação das agências de entretenimento em manter jovens mulheres artistas moralmente algemadas.

“Essas pessoas são marcas propriedades de cartéis de entretenimento”, diz ele. “E eles não querem nada que prejudique sua marca.”

Justin McCurry, para o The Guardian
8 de fevereiro de 2016


Nota: O artigo acima não me pertence em nenhum sentido, sendo meramente uma tradução daquele que se encontra linkado ao fim da tradução.
Disclaimer: The above article doesn't belong to me in any sense, being merely a translation of the one which is linked in the end of the translation.

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Sobre o Autor

Gosta de línguas, reflexões introspectivas, UTAU/Vocaloid, discussões sobre gênero e sexualidade, do céu e de fazer da vida alheia um bordado de renda (de chita filó).